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Não era só um dia ruim

Foto do escritor: Eliane Vanin
Eliane Vanin
8 de set.
5 min de leitura


Há algum tempo, acordei com uma sensação estranha.


Não saberia dizer exatamente o que era.


Talvez cansaço. Talvez irritação. Talvez aquela mistura de coisas que a gente não consegue nomear porque passou tempo demais apenas seguindo em frente.


Eu vinha de uma semana em que, sinceramente, nada parecia ter dado muito certo.


E lembro de ter pensado, com uma certa ironia:


“Bom… nada pode estar tão ruim que não possa piorar.”


O dia estava cinza.


E, de algum jeito, parecia que eu também estava.


Havia coisas para fazer, horários para cumprir, tarefas esperando.


E eu estava com pressa.


Mas não era apenas a pressa do relógio.


Era uma pressa por dentro.


Eu tinha planejado ir à academia e ainda precisava dar conta de algumas coisas antes de sair.


Pensei em não ir.


Mas continuei tentando cumprir a rotina mesmo assim.


Atropelei uma tarefa, depois outra.


Fazia as coisas, mas não estava verdadeiramente presente em nenhuma delas.


E havia uma vontade enorme de explodir.


Hoje consigo olhar para aquele momento e perceber que não era apenas o que estava acontecendo naquela manhã.


Havia uma semana inteira dentro de mim.


Pequenas frustrações.


Contrariedades.


Cansaço.


Irritação.


Coisas que eu não tinha olhado.


Emoções que eu não havia reconhecido, muito menos acolhido.


Eu simplesmente havia continuado.


Até chegar a hora de sair.


Foi quando percebi:


a chave do carro havia sumido.


Procurei na bolsa.


Nada.


Olhei nos lugares onde costumava deixá-la.


Nada.


Voltei aos lugares por onde tinha passado.


Procurei de novo.


Nada.


E quanto mais eu procurava, mais aquela pressa por dentro aumentava.


O tempo estava passando.


Eu tinha horário.



Queria ir à academia.


E agora estava ali, procurando uma chave que simplesmente não aparecia.


Depois de algum tempo, desisti.


Subi novamente até o apartamento e peguei a chave reserva.


Pensei:

“Pronto. Pelo menos isso está resolvido.”


Desci até a garagem.


E foi então que veio a surpresa.


Quando cheguei ao carro e olhei para dentro, lá estava ela.


A chave que eu havia procurado por tanto tempo estava na ignição.


E não desde aquela manhã.


Havia três dias.


Eu simplesmente a tinha deixado ali na última vez que usei o carro.


Por alguns segundos, fiquei olhando para aquela cena.


Depois de procurar, voltar ao apartamento e buscar a chave reserva, aquilo que eu tanto procurava estava justamente onde eu jamais imaginaria procurar.


Respirei.



Talvez ainda desse tempo.


Entrei no carro.


Girei a chave.


Nada.


Tentei novamente.


Nada.


A bateria estava completamente descarregada.


Foi quase irônico.


A frase que tinha passado pela minha cabeça logo cedo voltou:


“Nada pode estar tão ruim que não possa piorar.”


E tinha piorado.


Foi preciso ligar para o mecânico.


Esperar.


Resolver o problema.


A academia, claro, ficou para outro dia.


E ainda houve uma consequência bastante concreta:


dinheiro a menos na conta.


Poderia terminar essa história dizendo apenas que fui distraída.


E fui.


Mas aquela chave esquecida na ignição acabou me fazendo pensar em algo muito maior.


Quando não olhamos para dentro, começamos a funcionar no automático


Estar emocionalmente sobrecarregado não significa necessariamente chorar, gritar ou não conseguir sair da cama.


Às vezes, é exatamente o contrário.


A gente continua funcionando.


Trabalha.


Resolve.


Cuida.


Responde.


Cumpre horários.


Vai dando conta de tudo.


Ou, pelo menos, acha que está dando.


Só que a cabeça está em um lugar, o corpo em outro e as emoções vão sendo empurradas para algum canto, esperando uma hora “mais apropriada” para serem sentidas.


E essa hora quase nunca chega.


Naquela manhã, enquanto eu procurava desesperadamente uma chave que estava dentro do próprio carro, alguma coisa ficou muito evidente para mim:


eu estava fazendo muitas coisas, mas estava pouco presente naquilo que fazia.


Não posso dizer que minhas emoções fizeram com que eu esquecesse a chave.


Imprevistos acontecem.


Pessoas tranquilas também se distraem, esquecem compromissos e deixam uma chave no lugar errado.


Mas aquela situação serviu como um espelho.


Mostrou o quanto eu estava acelerada.


Dispersa.


Cansada.


Tentando dar conta de tudo sem perceber direito como eu estava.


E foi isso que ficou comigo.


O que não olhamos não simplesmente desaparece


Quando ignoramos durante muito tempo aquilo que sentimos, as emoções não deixam de existir só porque temos coisas mais importantes para fazer.


Elas continuam ali.


E podem começar a aparecer na nossa maneira de atravessar o dia.


Na impaciência.


Na dificuldade de concentração.


Na resposta atravessada para alguém que não tinha nada a ver com o problema.


Na decisão tomada às pressas.


No esquecimento.


No corpo tenso.


Na sensação de que qualquer pequena coisa é suficiente para nos fazer explodir.


Às vezes, nem percebemos o quanto estamos sobrecarregados porque continuamos funcionando.


E talvez esse seja justamente o perigo.


Por fora, aparentemente está tudo bem.


Por dentro, estamos chegando ao limite.


A bateria descarregada não foi um castigo


É importante dizer isso.


Sim, também acredito que coisas ruins podem acontecer porque não soubemos “vibrar certo”. Mas...


Imprevistos acontecem.


Dias ruins acontecem.


Pessoas emocionalmente equilibradas também perdem horários, esquecem coisas e têm problemas com o carro.


O que aquela situação me ensinou foi:

quando não estou presente em mim, tenho mais dificuldade de estar presente naquilo que faço.


E viver continuamente no automático pode ter consequências.


Às vezes pequenas.


Às vezes caras.


Às vezes dolorosas.


Gerir nossas emoções não significa impedir que elas existam.


Também não significa estar bem o tempo inteiro.


Significa conseguir perceber:


“Alguma coisa está acontecendo comigo.”


E dar atenção a isso antes de simplesmente continuar.


Talvez o problema não seja estar num dia ruim


Nós aprendemos que precisamos estar bem.


Produtivos.


Educados.


Disponíveis.


Fortes.


E, quando não estamos, muitas vezes tentamos disfarçar.


Seguimos fazendo.


Seguimos resolvendo.


Seguimos dizendo:


“Está tudo bem.”


Só que talvez maturidade emocional não seja conseguir estar bem todos os dias.


Talvez seja conseguir reconhecer:


“Hoje eu não estou bem.”


Sem culpa.


Sem dramatizar.


Sem transformar aquilo numa sentença.


Apenas reconhecer.


E, a partir daí, cuidar um pouco melhor das escolhas daquele dia.


Talvez seja diminuir o ritmo quando for possível.


Adiar o que pode ser adiado.


Respirar antes de responder.


Perceber a irritação antes de despejá-la sobre alguém.


Ou simplesmente parar por alguns minutos e perguntar:


O que estou sentindo?


O que aconteceu comigo nos últimos dias?


O que venho carregando sem perceber?


O que estou tentando engolir para continuar funcionando normalmente?


Do que eu preciso agora?


Às vezes, alguns minutos de presença evitam horas tentando consertar aquilo que fizemos no automático.


Nem todo dia ruim precisa virar uma semana ruim


Hoje, quando percebo que estou acumulando emoções, tento não esperar chegar ao limite para prestar atenção em mim.


Nem sempre consigo.


Mas percebo mais cedo.


Porque aprendi que emoção não acolhida não desaparece simplesmente porque a agenda está cheia.


E talvez esse tenha sido o maior aprendizado daquele dia.


Se hoje não for um bom dia, talvez você não precise fingir que é.


Pare por alguns minutos.


Reconheça.


Dê nome ao que está sentindo.


Pergunte-se o que pertence ao dia de hoje e o que você já vem carregando de outros dias.


Nem sempre será possível mudar aquilo que aconteceu.


Mas podemos mudar a maneira como atravessamos aquilo que aconteceu.


Naquele dia, uma chave esquecida na ignição me custou tempo, dinheiro e uma ida à academia.


Mas me deixou uma pergunta que vale muito mais do que o conserto:


quantas vezes seguimos dizendo “está tudo bem” enquanto, por dentro, já estamos funcionando no limite?


Talvez você nunca tenha deixado uma chave três dias na ignição.


Mas talvez a sua história tenha sido outra.


Uma discussão que poderia ter sido evitada.


Uma palavra dita no impulso.


Um compromisso esquecido.


Uma decisão precipitada.


Uma resposta atravessada.


Ou simplesmente aquela sensação de chegar ao final do dia e pensar:


“Eu não precisava ter passado por tudo isso desse jeito.”


E você?


Já viveu alguma situação em que só depois percebeu que não era apenas distração, irritação ou cansaço — havia coisas demais acontecendo dentro de você e você simplesmente continuava?


Talvez não seja preciso esperar a bateria descarregar.


Às vezes, o que precisamos é parar por alguns minutos e perceber:

como eu realmente estou hoje?


Com carinho

Eliane T Vanin

Terapeuta Transpessoal Sistêmica

 
 
 

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