top of page

A grama do vizinho é mesmo mais verde?

Foto do escritor: Eliane Vanin
Eliane Vanin
31 de ago.
5 min de leitura


Outro dia, eu estava em um salão de beleza.


Um daqueles lugares onde, enquanto alguém cuida do cabelo, as conversas vão acontecendo.


Uma fala daqui.


Outra dali.


Alguém comenta alguma coisa.


Outra pessoa acrescenta um detalhe.


E, quando percebemos, estamos acompanhando histórias de gente que nem conhecemos.


Naquele dia, o assunto era uma pessoa que estava crescendo profissionalmente.


Pelo que entendi, as coisas estavam indo muito bem para ela.


Novas oportunidades.


Reconhecimento.


Resultados.


Conquistas.


E a conversa começou a girar em torno disso.


“Também, para ela é fácil…”


“Olha onde chegou…”


“Agora tudo dá certo.”


“Queria eu ter essas oportunidades.”


Não lembro exatamente das palavras.


Mas lembro da sensação que aquela conversa me deixou.


Havia um incômodo no ar.


Uma comparação.


Talvez até uma pontinha de inveja — dessas que nem sempre gostamos de admitir que sentimos.


Fiquei quieta.


Mas comecei a pensar:

O que será que ninguém naquela conversa estava vendo?


A gente vê a conquista. Raramente vê o caminho.


Talvez aquela pessoa realmente estivesse vivendo uma fase maravilhosa.


Mas quem sabia o que havia acontecido antes?


Quantas noites ela havia dormido preocupada?


Quantas vezes pensou em desistir?


Quantos “nãos” recebeu antes de ouvir um “sim”?


Quantas vezes trabalhou enquanto outras pessoas estavam descansando?


Quantas escolhas precisou fazer?


Quantos prazeres adiou?


Quantas vezes tentou algo que não deu certo e precisou começar novamente?


Quantas pessoas duvidaram dela?


E quantas vezes ela própria duvidou?


Eu não sabia.


As pessoas do salão provavelmente também não.


E talvez nem fosse essa a história dela.


Esse é justamente o ponto.


Nós não sabíamos.


Estávamos vendo o resultado.


Não o percurso.


É muito fácil comparar resultados quando não conhecemos os bastidores


Talvez seja por isso que a grama do vizinho pareça tantas vezes mais verde.


Nós olhamos para aquilo que está visível.


O negócio que prosperou.


A carreira que deslanchou.


A viagem.


A casa.


O relacionamento.


O corpo.


O dinheiro.


A agenda cheia.


A pessoa aparentemente segura e bem resolvida.


E então olhamos para a nossa própria vida.


Só que existe um problema nessa comparação.


Da nossa vida, conhecemos os bastidores. Da vida do outro, geralmente conhecemos a vitrine.


Nós sabemos quanto nos custa levantar em determinados dias.


Conhecemos nossos medos.


Nossas contas.


Nossas inseguranças.


Nossas tentativas frustradas.


Sabemos das noites em que não dormimos.


Das decisões que ainda não conseguimos tomar.


Das coisas que começamos e não terminamos.


Do tempo que estamos levando para chegar onde gostaríamos.


Do outro?


Muitas vezes vemos apenas aquilo que já floresceu.


E aí fazemos uma comparação impossível de ser justa.


Talvez a inveja esteja tentando dizer alguma coisa


A palavra “inveja” costuma incomodar.


Ninguém gosta de se reconhecer invejando alguém.


Mas talvez nem toda inveja precise ser tratada apenas como algo feio que devemos esconder.


Às vezes, ela pode revelar alguma coisa sobre nós.


Quando a conquista de alguém nos incomoda tanto, talvez valha perguntar:

O que exatamente nessa pessoa mexeu comigo?


Foi o dinheiro?


A liberdade?


O reconhecimento?


A coragem?


O sucesso profissional?


A capacidade de fazer algo que eu gostaria de fazer e ainda não fiz?


Talvez aquilo que incomoda no outro esteja apontando para algo que desejamos para nós.


E, quando percebemos isso, temos duas possibilidades.


Podemos continuar olhando para o jardim do vizinho.


Ou podemos começar a cuidar do nosso.


“Para ela foi fácil”


Essa é uma frase perigosa.


Porque ela nos oferece conforto.


Se acreditarmos que o outro conseguiu porque teve sorte, contatos, oportunidades, dinheiro, facilidade ou porque “para ele tudo dá certo”, não precisamos olhar para aquilo que nós poderíamos fazer diferente.


Claro que as pessoas não partem do mesmo lugar.


Algumas têm mais oportunidades.


Mais recursos.


Mais apoio.


Mais privilégios.


Ignorar isso seria simplificar demais a vida.


Mas também existe outra verdade:

não conhecemos o preço que cada pessoa pagou para chegar onde chegou.


Às vezes, admiramos a disciplina sem conhecer as renúncias.


Queremos o resultado sem saber se aceitaríamos o processo.


Desejamos a chegada sem perguntar se estaríamos dispostos a percorrer o caminho.


Toda grama verde precisou ser cuidada


Enquanto aquela conversa continuava no salão, pensei justamente nisso.


Quando olhamos para um jardim bonito, vemos o verde.


Não vemos necessariamente a terra sendo preparada.


A poda.


A água todos os dias.


As ervas arrancadas.


As estações em que quase nada floresceu.


O tempo.


A repetição.


O cuidado quando ninguém estava olhando.


Na vida também é assim.


Existem conquistas que aparecem de repente para quem vê de fora, mas levaram anos para quem as construiu.


O “sucesso repentino” de alguém pode ter uma história que ninguém acompanhou.


Por isso, talvez a pergunta não seja:

“Por que a grama dela está mais verde que a minha?”


Talvez seja:

“O que ela precisou cultivar que eu ainda não comecei a cultivar?”


Comparação ou inspiração?


Existe uma diferença enorme entre olhar para alguém e pensar:

“Por que ela tem e eu não?”

e olhar para a mesma pessoa e perguntar:

“O que a trajetória dela pode me ensinar?”


A primeira pergunta nos coloca diante de uma falta.


A segunda pode nos colocar em movimento.


Talvez aquela pessoa tenha algo que você deseja.


Ótimo.


Reconheça.


Não há vergonha nisso.


Mas, em vez de diminuir a conquista dela para aliviar aquilo que você sente, experimente investigar o seu próprio desejo.


O que você quer construir?


O que está disposto a fazer por isso?


O que precisa aprender?


O que precisa deixar?


Onde precisa insistir?


E talvez a pergunta mais desconfortável:

Você quer realmente aquilo que o outro conquistou ou quer apenas a parte bonita que consegue enxergar?


Porque todo jardim tem uma parte que não aparece na fotografia.


Voltei para casa pensando naquela conversa


Não na pessoa que estava sendo comentada.


Eu nem conhecia suficientemente sua história para tirar conclusões sobre ela.


Pensei em nós.


Na facilidade com que olhamos para a vida alheia e completamos aquilo que não sabemos com nossas próprias suposições.


“Teve sorte.”


“Para ela é fácil.”


“Também, com as oportunidades que teve…”


Talvez.


Talvez não.


Mas enquanto gastamos energia tentando explicar por que o jardim do outro floresceu, existe um jardim muito mais próximo esperando nossa atenção.


O nosso.


Talvez a grama do vizinho esteja realmente mais verde hoje.


Mas nós não sabemos quanto tempo ele passou regando.


E, principalmente, ficar olhando para ela não fará a nossa crescer.


Então, da próxima vez que a conquista de alguém provocar alguma coisa em você, antes de se julgar ou julgar o outro, experimente perguntar:

“O que estou vendo na vida dessa pessoa que eu também gostaria de viver na minha?”


E depois:

“Qual é a pequena coisa que posso começar a cultivar hoje?”


Porque talvez a conquista do outro não tenha aparecido para mostrar o quanto falta para você.


Talvez ela possa mostrar que existem outros caminhos possíveis.


A grama do vizinho pode até parecer mais verde. Mas é a sua que está ao alcance das suas mãos.



Eliane T Vanin

Terapeuta Transpessoal Sistêmica

 
 
 

Comentários


bottom of page