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A moça do caixa não estava brava comigo

Foto do escritor: Eliane Vanin
Eliane Vanin
28 de jul.
4 min de leitura

Atualizado: 18 de ago.

Talvez não fosse sobre mim


Chovia.


Frio de inverno, desses que parecem deixar todo mundo um pouco mais fechado antes mesmo de qualquer coisa acontecer.


Fui ao mercado.


Um dia comum.


Gente entrando, saindo, conversando pelos corredores, se cumprimentando pelo nome — daquele jeito que cidade pequena ainda conserva.


Fiz minhas compras e fui para o caixa.


Foi quando meu carrinho enroscou numa pequena prateleira atrás do balcão.

Quatro caixinhas de chocolate caíram no chão.


Nada quebrou.


Ninguém se machucou.


Foi apenas um acidente bobo, desses que acontecem.


Eu disse, meio sem graça:

“Fiz caca… bati sem querer aqui.”


Mas não consegui terminar de explicar.


A expressão da moça do caixa mudou.

A voz mudou.

Os olhos se apertaram.


E ela disse que eu tinha feito aquilo de propósito.

Que não tinha sido sem querer.


Por alguns segundos, fiquei sem entender.

Era justamente o contrário.

Eu estava tentando explicar que tinha sido um acidente.


E então senti meu peito apertar também.

Veio aquela reação quase automática de querer responder no mesmo tom.

De me defender.

De mostrar que ela estava sendo injusta comigo.

Eu poderia ter feito isso.

Talvez, em outro dia, tivesse feito.

Mas respirei.


Às vezes, o que recebemos não começou em nós


Trabalho diariamente com pessoas ansiosas, sobrecarregadas, vivendo conflitos e tentando compreender suas próprias emoções.

É meu ofício.


Mas, naquele momento, não havia terapeuta e atendida.

Éramos apenas duas pessoas diante de um caixa de supermercado.

E talvez duas pessoas atravessando coisas que a outra desconhecia.


Enquanto me abaixava para ajudar a recolher os chocolates, pensei:

é fácil ser gentil com quem é gentil conosco.


Difícil é conseguir preservar alguma gentileza quando o outro nos oferece exatamente o contrário.


Não estou falando sobre aceitar agressões.

Nem sobre permitir que alguém nos desrespeite repetidamente em nome da compreensão.


Limites também são cuidado.


Mas existem momentos em que, antes de reagir, podemos nos perguntar:

Será que isso é realmente sobre mim?


Naquele dia, eu não sabia.


E continuo não sabendo.


Não sei o que havia acontecido com aquela mulher antes de eu chegar ao caixa.

Talvez tivesse tido uma manhã difícil.

Talvez tivesse recebido uma notícia ruim.

Talvez estivesse preocupada com dinheiro.

Com alguém da família.

Com o emprego.

Talvez estivesse apenas exausta.

Ou talvez nada disso.

Eu não conhecia a história dela.

Por isso, não cabia a mim inventá-la.


Mas havia algo evidente:

aquela reação parecia grande demais para quatro caixinhas de chocolate caídas no chão.


Quando o que está dentro transborda


Pouco depois, percebi uma mudança nela.

A tensão deu lugar a outra expressão.


Talvez tivesse se dado conta da maneira como havia reagido.

Talvez tenha pensado nas consequências daquilo.

Não sei.


Mas aquela cena ficou comigo.

Porque seria muito confortável terminar essa história dizendo que encontrei uma pessoa mal-humorada no supermercado e fui madura o suficiente para não responder.

Só que não seria a história inteira.

Porque eu também já fiz isso.


Já tive um dia difícil e cheguei em casa carregando comigo tudo aquilo que não consegui elaborar.


Já respondi de um jeito que a pessoa não merecia.

Já deixei uma irritação que começou em outro lugar atingir alguém que eu amo.

E talvez você também já tenha feito.

Ninguém está imune.


Quando não percebemos o que está acontecendo dentro de nós, corremos o risco de fazer alguém pagar uma conta emocional que não é dele.


O problema aconteceu no trabalho.

Mas quem recebe é o companheiro.

A preocupação é financeira.

Mas quem escuta a resposta atravessada é o filho.

A frustração é consigo mesmo.

Mas quem leva a impaciência é a atendente, o motorista, o colega de trabalho.

A dor nasceu em um lugar.

Mas transbordou em outro.


Compreender não significa justificar


Existe uma diferença importante entre compreender o comportamento de alguém e justificar esse comportamento.


Eu posso pensar que aquela mulher talvez estivesse vivendo um dia terrível e, ao mesmo tempo, reconhecer que não era correto me acusar de algo que eu não havia feito.

Uma coisa não anula a outra.


A empatia não exige que abandonemos nossos limites.

Ela apenas nos permite enxergar que, muitas vezes, estamos diante de uma pessoa inteira — e não apenas diante do comportamento que ela apresentou naquele instante.


Talvez seja isso que esteja faltando um pouco nas nossas relações.

Não tolerar tudo.

Mas também não transformar cada desconforto em uma guerra.


Antes de devolver, perceba o que recebeu


Vivemos acelerados.


Respondemos rápido.


Julgamos rápido.


Nos defendemos rápido.


E carregamos dores que, muitas vezes, nem tivemos tempo de reconhecer.


Então elas procuram saída.

No caixa do supermercado.

No trânsito.

No trabalho.

Dentro de casa.

Nas redes sociais.

Na pessoa que estava no lugar errado, na hora errada.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que possamos fazer diante de uma reação desproporcional seja:

“Isso realmente começou aqui?”


E há outra pergunta, ainda mais difícil:

“O que estou prestes a entregar para alguém começou nessa pessoa… ou começou em mim?”


Essa segunda pergunta muda muita coisa.

Porque nem sempre seremos a pessoa que recolhe os chocolates.

Às vezes, seremos a pessoa atrás do caixa.


A diferença está no que fazemos depois


Maturidade emocional não é nunca perder a paciência.

Não é nunca responder mal.

Não é estar equilibrado todos os dias.

Somos humanos.

Vamos falhar.

A diferença está em conseguir perceber.

Reconhecer.

Pedir desculpas quando for necessário.

Reparar o que puder ser reparado.

E, principalmente, começar a olhar para aquilo que estamos acumulando antes que precise transbordar sobre alguém.


Naquele dia, saí do mercado pensando na moça do caixa.

Mas também pensando em mim.

Nas vezes em que alguém recebeu uma versão minha que não tinha sido provocada por aquela pessoa.


E talvez essa seja a parte mais desconfortável — e mais transformadora — dessa história:

nem toda dor que recebemos nos pertence.


Mas também precisamos cuidar para não entregar aos outros aquilo que é nosso.

Então eu deixo duas perguntas para você:

Já aconteceu de alguém despejar em você uma dor que claramente não tinha começado ali?


E, olhando com a mesma honestidade para si:

quantas vezes alguém que você ama recebeu uma dor que também não era dele?


Talvez não possamos impedir todos os dias ruins.

Mas podemos aprender a reconhecer o que estamos carregando antes de colocar esse peso nas mãos de outra pessoa.


Eliane T. Vanin

Terapeuta Transpessoal Sistêmica

 
 
 

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