A ansiedade não começou hoje. Você só parou de ignorar agora.
Atualizado: 17 de ago.
Às vezes, a pessoa chega dizendo:
“Minha ansiedade começou agora.”
Mas, quando começa a contar a própria história, percebe que talvez ela não tenha começado agora.
Talvez agora tenha sido apenas o momento em que ficou impossível continuar ignorando.
Porque antes vieram os sinais.
O sono que deixou de ser reparador.
A mente que não desligava.
A irritação por coisas pequenas.
A sensação de estar sempre correndo, mesmo quando não havia motivo.
O corpo tenso.
O estômago apertado.
A dificuldade de descansar sem culpa.
A necessidade de controlar tudo.
O cansaço constante.
Mas a vida seguia.
E você também.
Então foi normalizando.
“É só uma fase.”
“Estou cansada.”
“Quando isso passar, eu descanso.”
“Depois eu vejo isso.”
“Agora não dá.”
E assim, aos poucos, o corpo foi aprendendo que precisava continuar funcionando mesmo sem ser escutado.
A gente se acostuma até com aquilo que faz mal
Esse talvez seja um dos aspectos mais silenciosos da ansiedade.
Nem sempre ela chega como uma crise.
Às vezes, chega devagar.
Vai entrando na rotina.
Você começa a acordar já pensando no que precisa resolver.
Toma café olhando o celular.
Responde mensagens enquanto faz outra coisa.
Come sem perceber o sabor.
Descansa pensando no que deveria estar fazendo.
Deita cansada e, justamente quando o corpo para, a mente começa a correr.
E isso vai se tornando tão habitual que parece normal.
Até que um dia alguma coisa muda.
O coração dispara.
O peito aperta.
A respiração fica curta.
Você acorda de madrugada e não consegue voltar a dormir.
Começa a evitar determinados lugares.
Perde a paciência com facilidade.
Ou simplesmente sente:
“Eu não estou dando conta.”
E então acredita que a ansiedade surgiu naquele dia.
Talvez não.
Talvez aquele tenha sido apenas o dia em que ela finalmente conseguiu ser ouvida.
O corpo costuma falar antes
Nós temos uma habilidade impressionante de racionalizar aquilo que sentimos.
O corpo, nem tanto.
Ele vai avisando.
Primeiro baixinho.
Uma tensão no pescoço.
Uma dor de cabeça recorrente.
O maxilar apertado.
O estômago embrulhado antes de uma conversa.
A respiração curta.
Um cansaço que não combina com o tanto que você dormiu.
Uma vontade de comer quando nem está com fome.
A sensação de que precisa estar fazendo alguma coisa o tempo inteiro.
O problema é que frequentemente tentamos silenciar o sinal sem investigar o que ele está dizendo.
Tomamos alguma coisa.
Nos distraímos.
Comemos.
Trabalhamos mais.
Rolamos a tela do celular.
Enchemos a agenda.
E seguimos.
Até que o corpo aumenta o volume.
Não porque esteja contra você.
Mas porque talvez seja a única maneira que encontrou de conseguir sua atenção.
Ansiedade não é apenas “pensar demais”
Muita gente reduz a ansiedade a pensamentos acelerados.
Mas ela pode aparecer de muitas formas.
Pode estar na necessidade de antecipar tudo.
Na dificuldade de confiar.
Na sensação de que, se você não controlar, alguma coisa vai dar errado.
Na culpa quando descansa.
Na preocupação excessiva com os outros.
Na tentativa de prever conversas que ainda nem aconteceram.
Na necessidade constante de aprovação.
Na dificuldade de dizer não.
Na impressão de que você está sempre devendo alguma coisa para alguém.
E, às vezes, isso vem de muito antes.
De anos vivendo em alerta.
De ambientes em que você precisou perceber o humor das pessoas antes de perceber o seu.
De responsabilidades assumidas cedo demais.
De perdas.
De inseguranças.
De cobranças.
De situações que ensinaram o seu corpo a permanecer preparado, mesmo quando o perigo já não está presente.
Isso não significa que toda ansiedade tenha a mesma origem.
Não tem.
Cada história é uma história.
Mas significa que vale olhar para além do sintoma.
Talvez você tenha aprendido a sobreviver muito bem
Existe uma coisa que vejo acontecer com frequência.
Pessoas extremamente funcionais acreditam que não poderiam estar ansiosas porque continuam dando conta.
Trabalham.
Cuidam da família.
Pagam contas.
Resolvem problemas.
Ajudam todo mundo.
São vistas como fortes.
E justamente por isso demoram para perceber o próprio limite.
Porque foram ficando muito boas em continuar.
Só que funcionar não é necessariamente estar bem.
Você pode dar conta de tudo por fora e estar completamente exausta por dentro.
Pode sorrir durante o dia e passar a madrugada com a mente acelerada.
Pode ser a pessoa que acolhe todos e não saber o que fazer quando é você quem precisa de acolhimento.
Pode ter uma vida aparentemente organizada e, ainda assim, viver internamente em estado de alerta.
O momento em que você percebe não é o começo do problema
Talvez seja o começo do cuidado.
Existe uma diferença enorme.
Quando você finalmente percebe que algo não vai bem, é comum sentir medo.
“Por que estou assim?”
“O que aconteceu comigo?”
“Como deixei chegar nesse ponto?”
Mas talvez uma pergunta mais útil seja:
“Há quanto tempo eu estou tentando dar conta disso sozinha?”
Em vez de julgar o sintoma, comece a escutá-lo.
Quando ele aparece?
O que costuma acontecer antes?
O que seu corpo faz?
Quais situações deixam você em alerta?
Quais emoções você tem dificuldade de sentir?
O que você tenta controlar?
O que você suporta há tempo demais?
Nem sempre teremos respostas imediatas.
Mas começar a fazer as perguntas certas já muda nossa relação com aquilo que sentimos.
Não é sobre eliminar toda ansiedade
Ansiedade também faz parte da experiência humana.
Ela nos ajuda a antecipar riscos, nos preparar e reagir.
O problema aparece quando o estado de alerta deixa de ser uma resposta pontual e começa a ocupar grande parte da vida.
Quando o corpo não consegue descansar.
Quando a mente não encontra silêncio.
Quando viver começa a parecer apenas administrar aquilo que pode dar errado.
Nesse ponto, talvez não seja necessário se cobrar mais controle.
Talvez seja necessário mais escuta.
Mais presença.
Mais compreensão da própria história.
E, em alguns casos, ajuda profissional.
Porque pedir ajuda não significa que você falhou em lidar consigo.
Significa que percebeu que não precisa continuar carregando tudo da mesma maneira.
Talvez hoje você só tenha parado de ignorar
Se você sente que sua ansiedade “apareceu de repente”, experimente olhar para trás com um pouco de gentileza e curiosidade.
Talvez existissem sinais antes.
Talvez você só estivesse ocupada demais para percebê-los.
Talvez estivesse tentando ser forte.
Talvez tivesse pessoas demais dependendo de você.
Talvez tenha se acostumado a viver em alerta.
Talvez ninguém tenha lhe ensinado a perguntar como você estava antes de perguntar o que ainda faltava fazer.
Então, em vez de pensar:
“Por que isso começou agora?”
Talvez você possa perguntar:
“O que em mim está finalmente pedindo para ser visto?”
Porque, às vezes, a ansiedade não começou hoje.
Hoje foi apenas o dia em que você parou de ignorá-la.
E talvez esse não seja o começo de algo ruim.
Talvez seja o começo de uma nova forma de cuidar de você.
E eu deixo uma pergunta:
Qual foi o primeiro sinal que seu corpo deu e que, na época, você chamou apenas de cansaço, estresse ou preocupação?
Eliane T. Vanin
Terapeuta Transpessoal Sistêmica



Comentários